A decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de criar o Circuito de Carnaval de Rua Preta Gil, anunciado em meio ao luto pela morte da cantora aos 50 anos, levanta questionamentos sobre o uso de recursos públicos para homenagens personalizadas. Enquanto o corpo de Preta Gil, vítima de recidivas de um câncer no intestino diagnosticado em 2023, é levado em cortejo por um carro do Corpo de Bombeiros após o velório no Theatro Municipal nesta sexta-feira (25), o percurso pelo novo circuito no Centro da cidade parece mais uma manobra política do que um tributo genuíno. A cantora, que comandava o Bloco da Preta reunindo até 750 mil pessoas, merece reconhecimento, mas transformar ruas em um “circuito” oficial cheira a oportunismo, especialmente quando o velório aberto ao público, das 9h às 13h, é seguido por interdições massivas de trânsito que paralisam a vida cotidiana dos cariocas.
Críticos podem argumentar que essa extravagância, com proibições de estacionamento desde as 19h de quinta-feira (24) e interdições em vias como Avenida Treze de Maio e Rua Araújo Porto Alegre até as 18h de sexta, prioriza o espetáculo sobre a eficiência urbana. O cortejo, que segue da Rua Araújo Porto Alegre até o Cemitério da Penitência no Caju, passando por avenidas como Presidente Antônio Carlos e Francisco Bicalho, não só homenageia Preta Gil, falecida nos Estados Unidos durante tratamento experimental, mas também destaca como autoridades exploram figuras culturais para autopromoção. Em tempos de crises políticas e econômicas, tal pompa questiona se o erário público deve financiar esses atos, ou se eles mascaram falhas em áreas mais urgentes como saúde e mobilidade.
No fundo, essa iniciativa da prefeitura, embora bem-intencionada em honrar uma empresária e artista influente no carnaval de rua, expõe uma tendência preocupante de misturar luto com agenda política, potencialmente alienando contribuintes que veem nisso um desperdício em vez de uma celebração coletiva.

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