Imagine receber uma ligação noturna informando que sua irmã, Amanda Martins Machado, de 27 anos, foi atropelada e morta enquanto pedalava na Estrada Parque Taguatinga, por um motorista a mais de 100 km/h em uma via de 60 km/h. Essa é a realidade de Fernando Braz, que viu sua família destruída em novembro de 2024. Enquanto ghost bikes, como a bicicleta branca soldada no local da tragédia, clamam por memória e alerta, o Distrito Federal registra 229 mortes no trânsito só em 2024 – um número 151% maior que óbitos por arma de fogo. Esses dados do Detran-DF e do Ministério da Saúde expõem uma crise evitável, mas o que os jovens como nós, que buscam mobilidade sustentável em bikes, recebem em troca? Uma normalização perversa, como explica o professor Hartmut Günther da UnB, onde tragédias diárias viram rotina, e as autoridades tratam como inevitáveis, em vez de investir em prevenção real.
É revoltante comparar: se uma queda de Boeing 737 matasse 280 pessoas por ano no DF, haveria comoção nacional e medidas urgentes. Mas mortes no trânsito, que somam 2.829 na última década na capital, passam batidas, como se fossem o preço da “modernidade”. A Abramet aponta causas claras – velocidade excessiva, álcool, vias mal sinalizadas como a BR-020, onde cruzes homenageiam vítimas como Antônio Marcos dos Santos e Anísio de Oliveira. No entanto, o governo local, com pistas duplicadas mas sem acostamentos decentes ou ciclovias, opta por soluções paliativas e lentas. Essa negligência política não só ignora dados da OMS, com 1,19 milhão de mortes globais anuais, mas rouba futuros de jovens como Amanda, uma nutricionista sonhadora que mal começou a pedalar. Nós, a geração que exige cidades seguras e ecológicas, não podemos aceitar essa indiferença – é hora de pressionar por leis rigorosas e investimentos que transformem “sinistros” em relíquias do passado.
Fernando, ao instalar a ghost bike de Amanda com a Rodas da Paz, sente um dever cumprido, mas a justiça ainda patina: o processo contra o motorista tramita no TJDFT sem data de julgamento. Histórias como a de Armando Leite de Santana, atropelado na BR-020 em 2022, reforçam que ciclistas são o “braço fraco” nessa disputa desigual com motoristas imprudentes. Como jovens, precisamos questionar: por que o poder público permite que memoriais à beira de estradas sejam nossos únicos alertas? Esses símbolos, defendidos pelo historiador Renner Vilela como “placas não oficiais”, sacralizam espaços de dor, mas não substituem políticas efetivas. Criticar essa inércia não é alarmismo – é sobrevivência em um DF onde 107 mortes já foram registradas até maio de 2025, 15 a mais que no ano anterior. Vamos cobrar accountability, ou continuaremos pedalando rumo ao abismo?

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