Um estudo conduzido por pesquisadores da Maternidade Escola da UFRJ, em parceria com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra da Universidade de Harvard, revela que mulheres com histórico de cesariana apresentam 45% mais risco de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, um câncer raro originado de células da placenta. A análise de dados de 2.904 pacientes atendidas entre 2002 e 2022 mostrou que 26,5% das 468 mulheres com cesariana prévia desenvolveram a doença, contra 20,8% das demais, mesmo após controle de outros fatores de risco.
Metodologia e principais achados
Os dados foram coletados em serviços de saúde no Brasil e nos Estados Unidos. Os pesquisadores destacam que a maior precisão do estudo decorre do volume de casos atendidos, especialmente no contexto brasileiro, onde as cesarianas são frequentes. Após ajustes estatísticos, o risco elevado permaneceu consistente, reforçando a associação entre o procedimento cirúrgico anterior e a progressão da neoplasia trofoblástica gestacional.
Hipótese sobre o mecanismo da doença
A equipe propõe que a cicatriz da cesariana cria uma área frágil no útero, facilitando a invasão das células tumorais. Segundo os especialistas, essa região pode desregular o sistema imunológico local, promover remodelamento vascular e gerar fibrose, aumentando a capacidade de penetração da mola no tecido uterino.
Com a quantidade de pacientes que a gente tem aqui, a gente pensou que poderia fazer essa avaliação trazendo um resultado muito mais preciso. Considerando também a grande quantidade de cesarianas que é feita no Brasil.
Gabriela Paiva
Antônio Braga, outro pesquisador envolvido, ressalta que a cesariana continua sendo uma cirurgia essencial para salvar vidas maternas e fetais, mas deve ser indicada de forma consciente. O estudo sugere incluir o histórico de cesariana como fator de risco adicional em protocolos de acompanhamento pós-gestacional.
